fevereiro 09, 2004

Contar-te-ei essa manhã

Sais da casa branca sobre o mar e fechas o portão. Segues pela Rua dos Naturais, escondendo-te na sombra que te protege do sol abrasador. Ouvirás o latir da cadelita da vizinha, e a música antiga que ela canta enquanto estende a roupa a secar ao sol. Depois chegarás à casa vermelha da esquina, junto ao posto da polícia. Aí encontrarás a mulher idosa que se senta à sombra num banquinho, olhando em silêncio a vida e a manhã. Sorrir-te-à e há-de dizer-te que aproveites o mar. Um pouco adiante surgir-te-á à tua direita o monumento de homenagem ao piloto alemão, cujo avião se despenhou a 40 km da costa, junto ao extremo da falésia. Entra no cafézinho quase escondido na falésia e pede ao homem uma garrafa de água fresca.

Retoma a descida e sentirás o sol queimar forte, pois não há sombra protectora. Vês a praia em baixo e o mar azul turquesa, com as rochas à vista, onde apanhavas caranguejos quando eras pequeno, e os baixios de areia a estenderem-se até longe. À tua esquerda está aquela árvore de ramos retorcidos cuja sombra protege um velho banco de madeira, e num dos seus ramos está colocado um poema sobre o local e a sua magia. Cumprimentas o vendedor cego de cautelas, que reconhece as pessoas pelo cheiro e pela voz. Desces as escadas para o varandim da Estrela do Mar, e respiras a aragem marítima que enche a manhã de um azul eterno. Acenarás ao Joel, que passa já tão cedo atarefado com os preparativos para o almoço. Desces com cuidado as escadinhas íngremes que conduzem directamente à praia.

Sentir-te-ás mais desperto quando o iodo invadir as tuas narinas, e as rochas cobertas de pequenas algas verdes te recordarem do milagre que são estes dias. Tirarás as sandálias e sentirás nos pés a areia molhada e as ondinhas frias que vêm do mar. Dirás a ti próprio que a infância tem o som da maré baixa. Deixarás a mochila no areal, perto do toldo que os teus amigos ocuparão depois do pequeno-almoço. Saúdas com um sorriso o velho vendedor de bolos todo vestido de branco, que vende as melhores bolas de Berlim do mundo. Percorre o areal junto ao mar, com a água pelos tornozelos, e dirige-te a onde a água é mais funda. Mergulha, sentindo o impulso e vigor da juventude perfurar a onda contigo. Passarás as mãos pelo cabelo loiro, puxando-o para trás e olharás à tua volta. Irás então descobrir que o esplendor da vida é uma manhã assim, quando te sentes um com o mundo e todos os que amas ainda estão a dormir.

Publicado por Katraponga em fevereiro 9, 2004 05:42 PM
Comentários

Vizinha?
Hihihi... Diogo, estão sempre a pensar que tu és uma menina! ;)

Afixado por: Joana em fevereiro 12, 2004 01:09 PM

A vizinha descuple estar a espreitar o seu quintal mas... vinha a passar e não consegui evitar!
Tem aqui umas flores engraçadas e uns canteiros com muita vegetação para ir descobrindo aos poucos.

Prometo ir passando e cheirando.

Até já, vizinha.
Vou pra dentro adicionar a sua rua ao meu livro de endereços.

;-)

Afixado por: O Vizinho em fevereiro 12, 2004 01:00 AM

;) *

Afixado por: Lane em fevereiro 11, 2004 07:33 PM

Estou com a beluga sequinha... tantos links fixes que tens aqui... e eu? Não mereço?...

Afixado por: São Rosas em fevereiro 11, 2004 12:51 PM

Sorry Pickpocket! Com a mudança da beluga esqueci-me de adicionar os novos links...

Afixado por: Katraponga em fevereiro 10, 2004 10:22 PM

Nice look & feel, Katraponga.

parabéns sinceros.

(e põe lá o linque pró meu, que eu já pus pro teu !)

Afixado por: Pickpocket em fevereiro 10, 2004 09:48 PM

Esqueci-me de falar nas conchas. Algumas ainda as tenho! Talvez ponha uma foto delas se encontrar aí alguma.

Afixado por: Katraponga em fevereiro 10, 2004 08:44 PM

Que bonito, Diogo. E as conchas? ;) Mil besos!!!

Afixado por: Joana em fevereiro 10, 2004 01:00 AM

Gostei do teu novo template. Parabéns à Ritinha e a ti também, porque continuo a sentir-me bem aqui ao pé de ti.

beijo enorme

Afixado por: Marta em fevereiro 9, 2004 10:35 PM