O frio aperta quando chego à Plaza Santana. Aperto o fecho do casaco até cima e arrependo-me de não ter trazido luvas, um erro fatal no mês de Fevereiro em Madrid. Resolvo fazer um passeio a pé pela zona das Huertas, o nome que se dá ao conjunto de ruas limitado pela Calle Atocha, Carrera de San Jerónimo e o Paseo del Prado. Um passeio a pé por toda esta zona é algo que desde há uns tempos tinha vontade de fazer. De repente, apercebo-me que não é só o frio que aperta, mas também a emoção do reencontro que esmaga a saudade que sentia. O meu coração acelera quando os meus olhos reconhecem o que outrora os deslumbrou, quando os meus ouvidos ouvem aqueles sons e palavras familiares, quando o meu olfacto reencontra os cheiros das ruas. Como o regresso de um filho que há muito partira, tudo isso reentra em mim. E saber que ficaste em casa a dormir até tarde, e logo vou estar contigo ao almoço.
Passo pelo Teatro Español, onde tantas peças vi, e pelo Hotel Victoria, onde há muitos anos os toureiros se alojavam e se vestiam antes da faena. Bebo um café rápido na Cercevería Alemana, e o velho empregado reconhece-me e cumprimenta-me, com um sorriso no rosto enrugado como um papiro. Saio e sigo até à Plaza de San Antón, onde está o Central, a catedral do jazz em Madrid, onde uma vez ouvi o Keith Jarred, que nessa noite ainda ficou lá a beber uns copos e a falar com as pessoas. A igreja de San Sebastián aparece à minha frente, o sítio onde se baptizaram, casaram e morreram tantas pessoas que me fizeram ser como sou: Cervantes, Lope de Vega, Bécquer... e mesmo ao lado, aquela loja antiga de flores da doña Lupe, onde te comprava flores quando chegava a Primavera.
Chego à Calle Atocha e sigo descendo, até ir dar à Plaza de Antón Martín, viro à direita e entro na Calle Costanilla de los Desamparados. Esta rua tem um nome castiço, que significa a calçada íngreme dos desamparados e onde faz esquina com a Calle Atocha está o edifício onde se imprimiu pela primeira vez o Don Quijote de la Mancha. Desemboco na Calle Moratín, atravesso a Calle de Santa María e chego à Calle Huertas. Subo até ao cruzamento com a Calle del Amor de Díos, onde um dia moraste e cujo nome me fez um dia crer que era possível viver longe de tudo o que é mau. Passo a Calle León e a Calle Cervantes, onde está a casa-museu de Lope de Vega, no seu estilo do século XVI. Sigo pela Calle Lope de Vega até à Plaza de Jesús, onde está a paróquia de Jesus de Medinacelli. A sua imagem de Jesus tem fama de milagreira, e dizem que quem a beijar em três sexta-feiras consecutivas depois do dia 1 de Março, terá concedidos três desejos. Lembro-me de segurar ao colo a tua sobrinha de três anos, a Penélope, com os seus caracóis loiros a cair pelos ombros, para beijar a imagem e depois olhar para mim com aqueles enormes olhos azuis e dizer a rir que tinha desejado uma boneca.
O sol brilha fortemente e lembro-me de ir ao Rastro, a feira da ladra de Madrid. Está um domingo gelado e cheio de sol, e sorrio ao pensar que com sorte talvez encontre umas luvas boas e baratas no Rastro. Sempre fiz boas compras lá e só o vaguear entre as bancas dos vendedores é uma experiência por si própria. Depois, um almoço dominical à madrileña: tapas y vinos tintos no Viajero, contigo e com os nossos velhos amigos, ficar a apanhar sol na esplanada a tarde toda e sentir o calor aconchegante. Rir, saborear o bom vinho tinto, e disfrutar da presença daqueles a quem tanto senti a falta. Quem disse que a vida não tem momentos bons?
Conheço mal madrid, mas ao ler este texto parecia que estava a passear nas suas ruas, cheias de encanto e doçura... e lembro-me de granada, da encosta de albaycin, das casinhas rústicas e do agradável odor próprio das coisas antigas...
Belo texto, katra, mais uma vez...
Beijinho!
Fazes parte dos que escrevem bem, de forma simples, a única para se ler com prazer.
Os blogs que vale a pena ler são estes e não os dos jornalistas que marcam e remarcam agendas politicas. Até porque eu quero continuar a ler jornais ! Gosto, pronto!
Afixado por: Pickpocket em fevereiro 21, 2004 02:38 PMBoa decisão! Grande beluga, sim senhor...acho que também vou pensar em mudar de hóspede!
Abraço draconiano!
Bichomau
Não te disse que não te irias arrepender?
:))
Continuas muy, muy guapo! ;)
Ups... isto era off-the-record!
Afixado por: Joana em fevereiro 20, 2004 07:35 PMAcho que mesmo os mais péssimistas admitem quehá bons momentos. As pessoas lembram-se é de olhar poucas vezes para eles. :)
Afixado por: Vaca Louca em fevereiro 20, 2004 06:17 PMMadrid... uma cidade fantástica... o teu texto fez-me ficar cheio de saudades dessa cidade...
Afixado por: Joaquim em fevereiro 20, 2004 04:04 PMQué bien escribes, Katraponga!
Muy lindo, este texto!
Me hizo echar de menos España (sobre todo Salamanca)...
Afixado por: Truta Vermelha em fevereiro 20, 2004 11:39 AMTambém gostei muito deste Post, mas ires viver para lá ... só com uma condição... de continuares a manter este espaço, caso contrário perco-te o "rasto" ...
Beijinho bom
Afixado por: Marta em fevereiro 19, 2004 11:26 PMTens mesmo de pensar seriamente na hipótese de ires viver para lá? Não te parece? ;)Adorei este texto!
Afixado por: Joana em fevereiro 19, 2004 10:13 PMDios! Como echo de menos España [mi España]... Madrid, él Rastro bajando por la Calle embajadores o subiendo, todo depende, verdad? :)
Aúnque lo que más echo de menos es Valladolid y Santander...
Afixado por: sara cacao em fevereiro 19, 2004 08:43 PM