fevereiro 29, 2004

A rapariga de Sydney

Estava uma manhã de Sábado de um azul perfeito quando aquela rapariga entrou na minha vida. Por um encontrão do destino. E não só. Descia as escadas do Parc Guel, em Barcelona, quando fui abalroado por uma rapariga que vinha em sentido inverso, distraída com o seu telemóvel. Prontamente me pediu desculpa, sorrindo atrapalhada. Meti conversa com ela. Tinha ar de britânica, embora o sotaque fosse diferente. Era australiana, e chamava-se Catherine. “Cathy”, disse-me sorrindo, com o seu acento down under. Ficou contente por saber que eu era português, pois no Verão anterior tinha estado no Alentejo, antes de regressar a Londres, onde estudava, e tinha ficado com boa impressão dos portugueses. Estava a passar o fim de semana em Barcelona, antes de rumar a Madrid, onde iria estudar um semestre. Quando soube que eu estava a viver lá, pediu-me imediatamente o número de telemóvel, pois ter um contacto dá sempre jeito para ajudar a procurar casa.

Com efeito, passamos a vermo-nos imensas vezes em Madrid. Havia sempre um pretexto para nos encontrarmos, fossem as jantaradas de comida portuguesa em minha casa, uma peça de teatro ou uma boa garrafa de vinho tinto e conversa a noite toda com amigos. Como vivíamos separados apenas por uma paragem de Metro, quando o Inverno chegou ela telefonava-me a perguntar se podia ir a minha casa para conversar e beber uma cerveja, pois fazia muito frio e nem dava vontade de ir a um bar. “Diôugôu”, chamava-me, o que me fazia sempre sorrir. Fomos ficando muito próximos, e ela quase se tornou a minha “mana mais nova” adoptiva. Adorava as conversas que tínhamos sobre Portugal, a Austrália, ou sítios onde tínhamos ido e onde ainda planeávamos ir, contava-me tudo sobre a sua vida, as quatro irmãs e o fantástico namorado em Sydney, enquanto eu ria e enchia os copos de Rioja Alto. Combinámos ir visitar San Sebastián quando passasse o frio invernal, eu saudoso, pois havia anos não ia lá, ela porque adorava conhecer aquela cidade maravilhosa.

Algum tempo depois fui convidado a ir a uma mega-festa que se realizava duas vezes por ano no Círculo de Bellas Artes de Madrid, e como a minha namorada não me podia acompanhar, ela nem hesitou em pedir-me para ir. A festa foi fantástica, e saímos de lá já muito tarde, um pouco arrasados de tanto beber. Fomos de táxi até sua casa e ajudei-a a entrar pois já começava a cambalear. No quarto, ajudei-a a deitar-se e ela pôs os braços à volta do meu pescoço, perguntando-me “Sabes que tenho um namorado em Sydney?”. “Sim, sei” disse, enquanto desviei o olhar do dela. “Mas agora só penso em ti”, sorriu-me. “É dos copos”, respondi, tentando recostá-la na almofada. Mas ela abraçou-me para mais perto de si e beijou-me. Ficámos assim uns segundos e depois levantei-me e vi no seu olhar o arrependimento do que tinha feito. “Até amanhã, Cathy”, disse-lhe, apagando a luz e dirigindo-me à porta. Como eu, ela sabia que não tinha sido só a bebida em excesso a levá-la àquele erro, e que algo mudara.

E de facto mudara. Ambos tínhamos os nossos compromissos sentimentais, ela fraquejou naquela noite e optou por me evitar e afastar-se. Nos dois meses seguintes practicamente não a vi. Raramente estava em casa ou atendia o telefone, e as pouco frequentes conversas eram cada vez mais curtas e lacónicas. Deixou de se dar com os meus amigos e amigas. Nunca chegámos a ir a San Sebastián. Tudo isso me custou, pois era uma rapariga por quem tinha amizade e carinho, e uma cumplicidade fraterna. Um dia uma colega sua da universidade, que encontrara por acaso num restaurante, disse-me que Cathy tinha voltado a Londres havia duas semanas.

Só voltei a ouvir notícias dela muito mais tarde, quando ao fim de um dia de trabalho, numa noite chuvosa, conferi as mensagens no voicemail do telemóvel. Uma delas era de Cathy, que me telefonava de Sydney: “Aqui a Primavera já chegou... está uma manhã linda, há flores e borboletas por todo o lado, e eu sinto saudades tuas...”.

Eu também sinto saudades tuas, Cathy.

Publicado por Katraponga em fevereiro 29, 2004 09:32 PM
Comentários

Realmente, o Manel já disse tudo...
Quantas Cathys temos nas nossas vidas? E quanto não nos doem a cada dia?

Afixado por: Tiago em março 21, 2004 08:45 PM

Uma história que podia ser de amor, afinal é uma história triste...

Nem sempre podemos explicar a um amigo a qualidade da nossa amizade!!!

Gostei da rapariga de Sydney.

Afixado por: melancia em março 4, 2004 04:27 PM

Yo también la hecho de menos, Sara! Pero este fin de semana volveré allá. ;)

Afixado por: Katraponga em março 3, 2004 02:08 PM

hei-de voltar com a calma necessária. mas já gostei das primeiras impressões. as mais importantes para mim. parabéns também pelo aspecto da beluga.

Afixado por: wilson t em março 3, 2004 11:05 AM

Barna Donostia Madrid Rioja

Rioja
Rioja
Logroño
Rioja... ponme una copa de campecillo y sirveme un pincho de tortilla y queso manchego, por favor... ;)

Jobar! Siempre me quedo hecha polvo con tus posts... Hecho muchisimo de menos a mi España *snifff*

Afixado por: Sara em março 3, 2004 03:28 AM

Vou ver, Vermelha. Mas acontece-me o mesmo nos outros que são iguais a este, tipo Blogue de Esquerda, Pensativa, etc... é de facto uma seca, até quando comento eu aqui tenho de escrever! ;)

Afixado por: Katraponga em março 3, 2004 01:43 AM

Uma coisa que não tem nada a ver: por que carga de água estes comments não guardam a nossa informação pessoal? Temos de escrever tudo de cada vez que queremos deixar um comentário! Uuuuuffff!

(Vê lá isso, Katraponga...) ;))

Afixado por: Truta Vermelha em março 3, 2004 01:26 AM

Olha, é isso mesmo, Manel!
Gostei bastante deste texto, Katraponga... mas andei sem saber o que dizer até ler o que o Manel escreveu. O nosso Manel é que tem razão...

Beijo,
TV

Afixado por: Truta Vermelha em março 3, 2004 01:23 AM

Gostei muito de ler esta história. Há uns dias ouvi alguém dizer que para escrever bem é preciso viver. É verdade! Beijinhos!

Afixado por: Joana em março 2, 2004 05:44 PM

E quem não tem uma Cathy, beijada ou por beijar?... Um abraço, amiguinho.

Afixado por: Manel da Truta em março 2, 2004 02:01 PM

Adorei a história :)

Afixado por: Loira em março 1, 2004 08:38 PM

:) (sim, reconheci). Haveria uma outra solução para essa situação, mas nem todas as mulheres e homens teriam estômago para aguentar os restantes dias (neste caso em Barcelona) anulando certos sentimentos.

Afixado por: Lane em março 1, 2004 05:59 PM

Os sentimentos transformam-se, nem sempre em sintonia, nem sempre de forma a não a magoarem outros.

Afixado por: Marta em março 1, 2004 12:23 PM

É incrível como um beijo dado na altura errada à pessoa errada muda tudo.

Afixado por: Rita em março 1, 2004 11:09 AM

eu gosto muito de Barcelona. esta estória trouxe-me boas recordações...

Afixado por: Louise em março 1, 2004 01:07 AM